Do narcotráfico na Venezuela à ameaça nuclear do Irã: quais são os padrões das intervenções dos EUA?

Eu não costumo escrever aqui no blog sobre temas internacionais. Mas hoje vou me permitir comentar o conflito que se intensificou entre Estados Unidos, Israel e Irã.

O que me preocupa nesse cenário é a lógica que parece se repetir: quando um governante se torna um problema estratégico, político ou econômico para os Estados Unidos, a solução passa a ser a intervenção direta ou indireta para enfraquecê-lo ou removê-lo do poder.

No caso da Venezuela, houve forte pressão diplomática, sanções econômicas e acusações graves contra o presidente Nicolás Maduro, incluindo envolvimento com narcotráfico. Posteriormente, parte dessas acusações foi redimensionada pelo próprio Departamento de Justiça americano, que passou a enfatizar a corrupção sistêmica no governo venezuelano. O fato é que a relação entre Washington e Caracas se transformou num embate político aberto.

Eu não costumo escrever aqui no blog sobre temas internacionais. Mas hoje vou me dar o direito de comentar sobre o conflito que se intensificou entre os Estados Unidos, Israel e o Irã.

O que me preocupa de verdade nesse conflito é que os Estados Unidos parecem estar removendo do poder, pela segunda vez em poucos meses, um governante que lhes causa problemas.

Primeiro, alegaram que Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, comandava o narcotráfico. Por esse motivo, invadiram o país e trouxeram Maduro preso. Algumas semanas depois, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos recuou ao acusar Maduro de liderar um cartel de narcotráfico e passou a falar apenas sobre corrupção no seu governo.

Agora, no Irã, a justificativa oficial foi que o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo iraniano, estaria produzindo armas nucleares que poderiam ameaçar os Estados Unidos — embora no ano passado tanto Israel quanto os EUA tenham afirmado que haviam destruído parte do potencial nuclear iraniano.

Está claro que tanto na Venezuela quanto no Irã o grande objetivo declarado foi promover a retirada do poder de governantes hostis aos interesses norte-americanos. Não estou aqui defendendo o aiatolá nem Maduro; estou dizendo que os Estados Unidos se colocaram no direito de intervir em países cujos líderes lhes preocupavam, agindo de forma unilateral.

E para quem agora pensa que, para derrubar dois governos considerados tirânicos, tudo bem que os EUA ultrapassem o sinal com desculpas duvidosas, o problema é definir o limite. Isso sem falar que tirania por tirania, corrupção por corrupção, o mundo inteiro está cheio; a diferença é quem é considerado “amigo” e quem não é.

O problema maior é saber se, depois de derrubar dois governos que lhes causavam problemas, Donald Trump vai parar por aí. Ou se, amanhã, ele pode se achar no direito de resolver um problema em um terceiro país — por exemplo, por um interesse econômico num quarto país…

Assim como aconteceu na Venezuela, onde o próprio Trump não fez questão de esconder seus interesses econômicos, pode ser que amanhã ele tente tomar pela força algo que lhe foi negado em paz.

Os grandes conflitos mundiais começam sempre com alguém que não enxerga limites — e vão escalando, escalando…

O risco maior não é apenas a queda de um governo específico, mas a normalização da ideia de que interesses geopolíticos justificam ações militares cada vez mais amplas. Conflitos internacionais raramente começam grandes; eles escalam. Começam com justificativas defensivas, passam por operações pontuais e, quando se percebe, já se tornaram crises regionais ou globais.

A pergunta que fica é: onde está o limite? E quem define esse limite?

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