A Justiça Eleitoral do RN determinou ontem, em decisão liminar, a retirada do ar dos resultados da pesquisa Média/O Potengi, sob a alegação de que houve formulação tendenciosa de perguntas com o objetivo de prejudicar o pré-candidato Allyson Bezerra. A pesquisa havia sido divulgada no último dia 29 de março. A decisão foi proferida pelo juiz relator Daniel Cabral Mariz Maia.
Ao analisar uma ação do Partido Republicanos, o magistrado apontou que a pesquisa incluiu perguntas específicas relacionadas a denúncias e a uma operação da Polícia Federal associadas ao pré-candidato. Segundo a decisão, não houve questionamentos semelhantes em relação a outros nomes.
O juiz destacou que essas perguntas indicam possível indução de respostas desfavoráveis. Na prática, a pesquisa teria apresentado aos entrevistados um conteúdo potencialmente desabonador direcionado exclusivamente a Allyson, o que, em tese, comprometeria a neutralidade do levantamento.
Objetivamente, a contestação da pesquisa se concentra em duas perguntas:
P17 – O(A) Sr.(a) ouviu falar ou ficou sabendo sobre a operação feita pela Polícia Federal envolvendo o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra?
( ) Sim, e sei detalhes sobre o caso
( ) Sim, mas só ouvi falar superficialmente
( ) Não, nunca ouvi falar sobre isso
( ) NS/NR
P18 – Na sua opinião, qual o nível de responsabilidade de Allyson Bezerra em relação às denúncias?
( ) É o principal responsável
( ) É um dos responsáveis
( ) Allyson Bezerra não é responsável pelos crimes apontados na denúncia
( ) NS/NR
Minha opinião é de completa discordância da decisão judicial. As duas perguntas tratam de temas de amplo conhecimento público e buscam compreender a percepção do eleitor sobre esses fatos — algo plenamente pertinente em pesquisas desse tipo. Até porque se trata de um levantamento mais amplo, com um total de 27 perguntas.
Quando se realiza uma pesquisa, o objetivo é justamente entender o que os entrevistados pensam sobre determinados assuntos: sua percepção sobre candidatos, a imagem que constroem sobre os nomes e suas propostas, além de como se posicionam diante de temas do cotidiano e de questões polêmicas. É com base nessas informações que campanhas estruturam suas estratégias de comunicação.
Em uma rápida consulta a pesquisas recentes de grandes institutos sobre temas sensíveis — e, por vezes, potencialmente desabonadores — encontramos diversos exemplos. O Datafolha, por exemplo, questionou eleitores sobre a responsabilidade de Bolsonaro na tentativa de golpe. A Quaest investigou se o eleitor votaria em um candidato que defendesse anistia aos condenados. A Paraná Pesquisas perguntou se Bolsonaro tentou dar um golpe. O Ipespe também abordou se o ex-presidente esteve envolvido nesses acontecimentos.
Ou seja, se aplicada a tese de que perguntas que abordam fatos potencialmente negativos inviabilizam a divulgação de pesquisas, teríamos uma infinidade de levantamentos retirados do ar.
Concordaria integralmente com a decisão caso as perguntas tratassem de fatos comprovadamente falsos ou de denúncias inexistentes. No entanto, não é esse o caso. Trata-se de fatos públicos, amplamente divulgados, e as perguntas não afirmam culpa ou inocência — apenas investigam o nível de conhecimento do entrevistado e a percepção que ele constrói sobre esses acontecimentos.
Se prevalecer o entendimento de que qualquer pergunta que remeta a fatos negativos — ainda que reais e de interesse público — pode comprometer uma pesquisa, corremos o risco de assistir a uma avalanche de levantamentos censurados em todo o Brasil.





