Fiquei um pouco surpreso quando recebi, nesta sexta-feira pela manhã, no meu feed do Instagram, um longo vídeo de Allyson Bezerra explicando sua posição sobre o voto para a Presidência da República.
No vídeo, Allyson mostrava duas fotos: uma com Jair Bolsonaro, em Brasília, e outra com Lula, no aeroporto de Mossoró. Ele tentava explicar que sua postura é manter uma relação institucional com quem estiver na Presidência da República e que, por isso, não seria necessário declarar se vota neste ou naquele candidato.
Fiquei surpreso porque, durante toda a campanha, Allyson pouco falou sobre seu voto presidencial. Respondia a contragosto, nos debates, às perguntas sobre em quem votaria para presidente. Era um assunto do qual procurava sempre fugir.
Vendo o vídeo e a longa justificativa, pensei com meus botões: aí tem coisa!
Fiquei ainda mais surpreso quando, no final da tarde, chegou até mim um novo vídeo de Allyson, tão longo quanto o da manhã e abordando a mesma temática. Nesse novo vídeo ele mostrava três governadores eleitos em outros estados que não precisaram declarar o voto para presidente. Mais uma extensa explicação sobre os motivos pelos quais não declarava apoio a Lula ou a Bolsonaro.
Durante as campanhas, os partidos utilizam um sistema de pesquisas rápidas, conhecido como tracking, que busca identificar a opinião dos eleitores sobre os assuntos do momento e avaliar como o candidato deve se posicionar diante dos temas que dominam o noticiário.
Eu já havia percebido que o tracking de Allyson, no primeiro turno, provavelmente indicou a necessidade de reforçar sua campanha em Natal. De repente, Allyson mudou sua agenda e passou a priorizar andanças nos bairros e ruas da capital.
Se foi essa a indicação, o tracking estava certo. O resultado das urnas mostrou que, de cada quatro eleitores de Natal, apenas um votou em Allyson.
Não tenho dúvidas de que as pesquisas instantâneas de Allyson devem ter sinalizado que o “bicho estava pegando” nessa questão do voto para presidente. Daí, na minha avaliação, a necessidade de gravar dois vídeos tentando explicar sua posição ao eleitorado.
Está muito claro que a polarização nacional chegou com força aos estados onde haverá segundo turno. A vinculação entre o voto estadual e o voto presidencial, seja em Lula ou em Flávio Bolsonaro, tornou-se um elemento importante da disputa.
E Allyson pode ter sido alertado de que, sem uma identificação mais clara com Lula ou com Flávio, o samba ficou atravessado. Há o risco de que eleitores de Lula no Rio Grande do Norte decidam casar o voto com Cadu. O 13 duas vezes.
Na minha avaliação, somente uma preocupação dessa natureza justificaria Allyson ter gravado dois vídeos no mesmo dia, tentando explicar sua posição sobre um tema que evitou durante todo o primeiro turno.
Eu só não sei qual foi a dimensão do problema identificada pelas pesquisas rápidas.
No caso do voto do natalense no primeiro turno, o resultado revelou uma realidade avassaladora para Allyson: apenas um voto a cada quatro eleitores.
E, agora, no caso da vinculação entre Lula e Cadu, qual será o alcance desse movimento no segundo turno?
Allyson já parece ter essa resposta.
Nós, ainda não.





