Em relação à eleição indireta para o mandato-tampão no Rio Grande do Norte, uma coisa parece ser unanimidade: a importância decisiva do presidente da Assembleia Legislativa do RN, Ezequiel Ferreira. A avaliação é quase consensual: para o lado que Ezequiel pender, a chance de vitória é elevada.
Diante desse peso político, todos tentam entender — ou adivinhar — o pensamento do presidente do Legislativo. “Ele está alinhado com a direita”, dizem uns. “Ele está conversando com Fátima Bezerra”, dizem outros. “Waltinho vai levar Ezequiel para o lado de Allyson”, arriscam ainda alguns.
As raríssimas falas públicas de Ezequiel contribuem para aumentar o suspense. A frase mais repetida nos bastidores é: “Só Ezequiel fala por Ezequiel”.
Na terça-feira, durante a abertura dos trabalhos da Assembleia, Ezequiel falou. E disse uma frase que passou despercebida por muita gente, mas que é reveladora. Em meio às informações sobre a eleição indireta, declarou: “Eu já decidi que a eleição será com voto aberto”.
Antes de explicar por que essa frase ajuda a clarear o cenário, é preciso registrar uma informação que circula entre analistas e articuladores políticos: há quem acredite que Ezequiel Ferreira vem tentando construir um ambiente favorável para disputar o Senado.
Nesse contexto, teria tentado convencer Styvenson Valentim a disputar o Governo, eliminando um concorrente direto. Também, com o mesmo objetivo, moveria esforços para impedir que o governo viabilizasse a eleição do sucessor de Fátima para o mandato-tampão, o que levaria a governadora a desistir da renúncia e, consequentemente, a ficar fora da disputa ao Senado.
Sem Styvenson e sem Fátima, abrir-se-ia a lacuna para Ezequiel disputar a vaga. O problema é que Styvenson não aceitou disputar o Governo, e o PT mantém Fátima Bezerra como prioridade absoluta na disputa ao Senado.
É nesse ponto que a frase de Ezequiel se torna reveladora. Ao afirmar que já decidiu que o voto será aberto, ele diz, de forma direta, que haverá eleição indireta no RN.
Se Ezequiel acreditasse que Fátima não renunciaria, dificilmente anteciparia uma escolha pelo voto aberto que só se aplica ao cenário concreto de renúncia. É verdade que ele ressalvou que as hipóteses só se tornam fatos quando houver a dupla vacância. Ainda assim, ao falar em voto aberto como decisão já tomada, tratou concretamente de um fato, não apenas de uma suposição.
Concordo com os que avaliam que Ezequiel terá papel crucial nessa eleição intermediária. Ele é, de fato, decisivo. Mas, ao anunciar previamente o voto aberto, o presidente acabou revelando a sequência lógica que se desenha: Fátima vai renunciar, haverá dupla vacância, a Assembleia realizará a eleição indireta e o voto será aberto.





