Flávio já ganhou? O risco de tratar o segundo turno como mera formalidade

Lendo e acompanhando o noticiário nacional, tenho a impressão de que o segundo turno nem precisa acontecer. É como se Flávio Bolsonaro já fosse o presidente eleito do Brasil e a nova votação fosse apenas uma formalidade.

O foco de parte da cobertura já está no que viria depois da vitória: como e quando Flávio atuaria para tirar o pai da cadeia, o que faria em relação ao STF e como o Brasil se encaixaria na estratégia de Trump para a América Latina.

Já se fala na escolha dos ministros e na partilha do poder. Rogério Marinho é tratado como futuro presidente do Senado. Discute-se o próximo governo como se a etapa que permite chegar até ele já estivesse vencida.

Reconheço o favoritismo de Flávio e considero sua vitória provável. Mas também conheço a história das eleições brasileiras o suficiente para saber que é preciso esperar o voto cair na urna antes de cantar vitória. Favoritismo não é resultado.

Nos últimos meses, vivemos um processo eleitoral pendular. O eleitor independente oscilou entre a esquerda e a direita, indo e vindo ao sabor das manchetes, dos escândalos e das crises políticas.

Lula já foi considerado franco favorito. Depois, Flávio empatou o jogo. Vieram os áudios envolvendo Vorcaro, e a candidatura de Flávio chegou a ser dada como sepultada. Em seguida, as controvérsias envolvendo o STF e a guerra política entre ministros voltaram a alimentar a rejeição ao sistema e o desejo de mudança. Na minha leitura, esse movimento favoreceu novamente Flávio.

Esse vaivém é justamente o motivo para ter cautela. Se o cenário mudou tantas vezes ao longo da campanha, por que presumir que permanecerá imóvel nas três semanas que ainda restam?

Há outro aspecto que me chama a atenção. Embora Flávio seja hoje o grande favorito, não encontro, entre os eleitores com quem converso, muitas manifestações de confiança em seu preparo ou em sua capacidade de governar. Percebo um voto muito mais enraizado na frustração com o governo e no desejo de que alguma coisa mude no país.

Essa diferença ajuda a entender a disputa. Um eleitor pode escolher Flávio sem estar convencido de suas qualidades. Pode votar nele porque rejeita a continuidade do governo atual e enxerga, entre as opções disponíveis, um caminho para expressar essa insatisfação.

A meu ver, o grande erro de Lula foi conduzir a campanha como se bastasse enfrentar Flávio Bolsonaro. Seu adversário mais difícil, porém, é o sentimento de frustração com o governo. Criticar o concorrente não resolve, por si só, as razões que levam o eleitor a querer mudança.

Flávio tem o mérito político de ocupar esse espaço e transformar a insatisfação em apoio eleitoral. Está no lugar certo, na hora certa. Mesmo desconfiando de que ele não seja esse mel todo, muitos eleitores parecem entender que essa é a alternativa que restou para dizer que querem outro rumo para o país.

Isso sustenta seu favoritismo, mas não elimina a incerteza. Um apoio movido principalmente pela rejeição ao adversário não equivale, necessariamente, a uma confiança consolidada no candidato. Ainda há espaço para fatos novos alterarem a percepção de quem vai votar.

Ninguém sabe quais novidades surgirão, que denúncias poderão aparecer ou como os candidatos reagirão aos acontecimentos das próximas semanas. Muita coisa já aconteceu nesta eleição. Com base em quê podemos afirmar que nada mais acontecerá?

Minha reflexão é um lembrete diante do clima de eleição resolvida: ainda temos uma nova votação pela frente. O noticiário pode antecipar ministros, alianças e a partilha do poder. Mas quem decide se tudo isso sairá do papel é o eleitor.

E ele ainda vai às urnas mais uma vez.

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