As declarações da deputada federal Carla Dickson (PL), ao programa Política sem Filtro, da Rádio Difusora, provocaram uma avalanche de reações contrárias. Mas é preciso ir além do episódio e discutir o uso de estruturas que “moem” durante as campanhas eleitorais.
O grande equívoco de Carla foi direcionar sua desconfiança exclusivamente para Nina, ao sugerir que a máquina da Prefeitura de Natal estaria operando em favor da candidatura da esposa do prefeito.
Mas, afinal, quantas máquinas não estão “moendo” neste momento em favor desta ou daquela candidatura? É apenas a Prefeitura de Natal?
Comecemos pelas emendas parlamentares. Cada deputado federal pode destinar quase R$ 200 milhões ao longo dos quatro anos de mandato. Trata-se de uma máquina poderosa — e que mói com força.
O uso dessas emendas como instrumento de captação de apoio político — seja de prefeitos, seja da população — desvirtua as condições de igualdade no processo eleitoral. Na prática, cria-se um ciclo de dependência alimentado por recursos públicos.
Hoje, praticamente todos os prefeitos apoiam candidatos a deputado federal que enviaram emendas para seus municípios. Como um pré-candidato sem esse recurso pode competir em condições justas? A máquina das emendas já está moendo — e com intensidade — em favor de diversos nomes.
Isso não significa justificar o uso das máquinas das prefeituras. De forma alguma. O que se observa, na verdade, é um sistema de dupla engrenagem: as emendas atuam para atrair o apoio dos gestores locais, e, em resposta, as estruturas municipais trabalham para garantir votos aos autores dessas emendas. Todos moem.
E não são apenas as prefeituras. A máquina estadual moe. As estruturas federais também. As emendas parlamentares, então, operam com ainda mais força.
O problema é que esse mecanismo faz parte da própria estrutura do modelo eleitoral brasileiro. O parlamentar destina recursos públicos por meio de emendas, e a prefeitura retribui com apoio político, utilizando cargos, serviços e influência local. É um ciclo vicioso — mas institucionalizado.
Isso não quer dizer que, por ser parte do jogo, tudo seja permitido. Longe disso. É preciso distinguir o funcionamento do modelo dos abusos que dele decorrem.
Quando o uso da máquina ultrapassa seus limites e passa a configurar abuso de poder econômico, compra de votos ou coerção ao eleitor, entramos em outro terreno. E aí, são outros quinhentos.




