Você quer entender tudo o que aconteceu desde a chegada de Kelps Lima ao União Brasil, no fim de março, até o anúncio da desistência de sua candidatura, feito na manhã desta quinta-feira (09/07)? Então acompanhe essa história contada em capítulos.
Parte 1
Em março, Kelps participou de uma reunião com João Maia, Robinson Faria e Benes Leocádio. Na ocasião, recebeu um convite para integrar a nominata do União Brasil. A proposta previa fundo eleitoral igual para todos os candidatos (R$ 3 milhões para cada), o mesmo tempo de rádio e televisão e o apoio de dez prefeitos que João, Benes e Robinson lhe repassariam para ajudá-lo a construir uma candidatura competitiva.
Parte 2
A proposta foi aceita. Algumas semanas depois, Kelps começou a demonstrar preocupação porque os dez prefeitos prometidos não apareciam. Nem os outros compromissos. Reclamou, ameaçou desistir da filiação e buscar outro caminho. Após novas negociações, os apoios começaram a surgir, a estrutura apareceu, e, então, ele oficializou sua filiação ao União Brasil.
Parte 3
Encerrado o prazo das filiações partidárias, os problemas voltaram. A indefinição em torno dos prefeitos reapareceu, apoios que estavam sendo encaminhados recuaram e outros compromissos passaram a não ser cumpridos. Kelps começou a ter dificuldade até para ser atendido por telefone e concluiu que o acordo firmado dificilmente seria executado.
Parte 4
Diante desse cenário, Kelps resolveu endurecer o discurso e passou a fazer críticas públicas aos integrantes da própria nominata. Chamou os deputados do grupo de “irrelevantes” e classificou Robinson Faria como o pior governador da história do Rio Grande do Norte.
Parte 5
Incomodados com os ataques, Robinson, João Maia e Benes Leocádio passaram a discutir o futuro da chapa. A avaliação interna era de que, com ou sem Kelps, a nominata elegeria apenas dois deputados federais. Na visão do grupo, os votos de Kelps não alterariam esse cenário. A partir dessa leitura, foi tomada a decisão de retirá-lo do projeto.
Parte 6
Há cerca de duas semanas, Kelps foi chamado para uma reunião com João Maia, Benes Leocádio, Robinson Faria, José Agripino Maia e Allyson Bezerra. Segundo relatos dos bastidores, foi informado de que os compromissos assumidos anteriormente não seriam mais cumpridos. Não teria mais o apoio dos prefeitos, os R$ 3 milhões do fundo eleitoral nem o tempo de rádio e televisão que lhe haviam sido prometidos.
Parte 7
Kelps ainda tentou uma última cartada. Procurou o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, e decidiu viajar a Brasília. No entanto, não conseguiu ser recebido. Em uma conversa telefônica com a tesoureira nacional do partido, Emília Rueda — irmã do presidente —, recebeu a confirmação de que os compromissos assumidos anteriormente não seriam mantidos.
Parte 8
De volta a Natal, Kelps concluiu que havia caído em uma armadilha política e tomou a decisão definitiva de retirar sua candidatura. Também decidiu não disputar qualquer outro cargo nas eleições deste ano e anunciou que mantém apoio à candidatura de Allyson Bezerra ao Governo do Estado.
ANÁLISE
Kelps acabou sendo vítima, em grande medida, das próprias escolhas políticas. Passou cerca de dois anos buscando uma nominata competitiva para disputar uma vaga na Câmara Federal e optou pelo União Brasil diante das condições que lhe foram apresentadas.
Ao longo do processo, parece ter superestimado seu peso político dentro da composição da chapa. Quando a relação se deteriorou, descobriu que sua capacidade de negociação era menor do que imaginava.
Do outro lado, João Maia, Robinson Faria e Benes Leocádio reagiram às críticas públicas e passaram a conduzir a disputa interna com outra lógica. Na avaliação deles, a permanência ou a saída de Kelps não alteraria o número de cadeiras conquistadas pela nominata.
Kelps afirma ter caído em uma cilada. A leitura que faço é diferente. O episódio ilustra uma das características mais conhecidas da política: enquanto um agente político agrega valor a um projeto, sua capacidade de negociação é elevada; quando deixa de representar ganho para o grupo, seu poder de barganha diminui rapidamente.
Na tentativa de jogar uma partida estratégica, Kelps acabou derrotado justamente pelas regras mais elementares da política: deixou de ser visto como alguém que somava e passou a ser percebido como alguém que dividia.





