Artigo de Paulo Afonso Linhares: “Faca Bowie na melancia do mundo”

FACA BOWIE NA MELANCIA DO MUNDO

Paulo Afonso Linhares

Desde tempos imemoriais da História do mundo, em todas as épocas e latitudes, a política se constrói com dissimulações, ardis, engodos e enganações, o objetivo de estabelecer conquistas e dominações, quase sempre ao preço altíssimo de vidas humanas barbaramente sacrificadas – geralmente pessoas inocentes e frágeis civis – para colimar objetivos econômicos, políticos, ideológicos e religiosos. Nesses momentos, a tragédia que atinge brutalmente nações inteiras ou determinados grupos étnicos, esmagados pela barbárie mais cruel e vil são “contabilizados” como meros “efeitos colaterais”.

Poderia colecionar muitos milhares de exemplos disso, mas, basta citar as imensas atrocidades perpetradas pelas poderosas máquinas de guerra da Alemanha e do Japão, na Segunda Guerra mundial. Terminado o conflito, os países vencidos pela coalizão Estados Unidos, Rússia e Inglaterra, cujos líderes participaram das conferências de Ialta (fevereiro de 1945) e Potsdam (julho/agosto de 1945), fora agraciados com generosos programas de recuperação econômico-social, a exemplo de Plana Marshall.

Assim, em poucos anos após o fim da Segunda Guerra, Alemanha, Japão e Itália se soergueram como nações economicamente fortes graças à forte mão amiga dos Estados Unidos da América e seus aliados da Europa Ocidental. Para isso acontecer “ninguém combinou com os russos”, que já perfilavam o outro lado da Guerra Fria e queriam manter a “posse” da porção do planeta que lhe coube como estabelecido em Ialta/Potsdam. Obviamente que os russos nada nada combinaram com seu ex-aliados quando os confrontaram em várias partes de mundo, inclusive quando quiseram implantar em Cuba – começo dos anos 1960 – bases de mísseis a menos de cem milhas do território norte-americano. Deu “b.o.” e a reação comandada pelo presidente J.F. Kennedy obrigou a turma de Nikita Khrushchev botar a viola no saco e cantar noutro lugar. A tal “Crise dos Mísseis” quase foi estopim para um conflito cujos protagonistas – EUA e a antiga URSS – iriam usar armas nucleares tão poderosas que, comparadas àquelas detonadas em Hiroshima e Nagasaki, fariam destas meros rojões juninos.

Nesse episódio marcante da História mundial, mais uma vez é previsível a velha tática política da “faca em melancia”: Khrushchev mandou os seus mísseis para o quintal dos EUA. Literalmente, começou a “enfiar a faca na melancia” para impor uma situação de enorme dificuldade para os EUA. A dura resposta de Kennedy, impondo um bloqueio naval à URSS àquela região, impôs um recuo, para impedir que “a faca entrasse na sua melancia”.

Na política das relações internacionais, ações sempre terão esse pantim: meter a faca na melancia e continuar até que a outra parte reaja. Neste sentido, examinadas as peripécias do presidente Donald Trump (EUA) na cena política internacional, é perceptível que o blefe está na base de todas as suas (algumas inacreditáveis) investidas: enfiar a faca até o cabo, se os interessados não reclamarem.

Em pouco tempo, Trump ameaçou transformar o vizinho Canadá no 51º estado norte-americano; invadir e anexar a Groenlândia, possessão territorial da aliada Dinamarca; retomar o Canal do Panamá; impor pesadas tarifas comerciais a todos os países que comercializam com os EUA; invadir a Venezuela e prender o presidente Nicolas Maduro; e, invadir o Irã, a pretexto de impedir o domínio de tecnologia para fabricação de armas nucleares, inclusive com a ameaça de matar Ali Khamenei, líder supremo do Irã.

O Canadá, os parceiros da Europa Ocidental bateram o pé em defesa da Groenlândia dinamarquesa, muitos países prejudicados com o tarifaço de Trump, principalmente a China, lhe impôs enorme recuo. Enfim, nada de faca na melancia. Ao revés, a Venezuela e seus fortes aliados, China e Rússia, deixa a a faca entrar e Trump, numa ação relâmpago das tropas norte-americanas, invadiu a Venezuela para prender Nicolas Maduro, sob acusação de comandar cartel de narcotráfico que abastecia os EUA de drogas, algo inédito nas relações internacionais. Enfiou a faca totalmente na melancia venezuelana e não deu em nada.

Certamente, encorajado por sua bravata na Venezuela, Donald Trump, em franco desrespeito ao Direito Constitucional de seu país, ou seja, sem a imprescindível autorização do Congresso norte-americano, neste final de fevereiro de 2025, invadiu o Irã, em aliança com Israel, com fortes bombardeios a diversos alvos militares e civis, no que resultou pesadas baixas iranianas, em especial, do aiatolá Ali Khamenei. O mais grave é que Trump montou um falso cenário de negociações diplomáticas com o Irã, embora já tendo planejada toda a ação militar de invasão daquele país. Enfiou profundamente a faca na melancia Iraniana.

O Direito Internacional desavergonhadamente feito tábula rasa, ademais de projetar grave insegurança das relações econômicas e políticas em nível planetário. Pouco importa: o Agente Laranja usa uma enferrujada faca Bowie, legada pelo autocrata William McKinley (1843–1901), o 25º presidente dos EUA e que foi vítima de assassinato, nas suas cotidianas trampolinagens. Daí, resta saber: em que melancia vai Trump meter sua faca? O mundo precisa urgentemente de adivinhar.

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