Hoje me deparei com várias postagens de apoiadores de Allyson Bezerra, e do próprio candidato, fazendo referência ao “calango”, animal bastante conhecido da fauna nordestina. O motivo foi um discurso da deputada estadual Isolda Dantas, em Mossoró, no qual ela teria chamado Allyson de “calango”.
Foi o suficiente para que a campanha de Allyson passasse a explorar o episódio, associando o apelido a uma suposta discriminação contra sua origem rural, sua história de vida e o fato de ter vindo de uma região marcada pela seca.
Mas é importante recuperar a origem dessa história.
O apelido “calango” já era utilizado antes mesmo do início oficial da campanha pela influenciadora e humorista Vivi Alvares, que se referia a Allyson como o “candidato calango”.
Nas postagens de Vivi, a associação não estava relacionada à origem humilde ou rural de Allyson. A crítica era à sua postura política, especialmente à resistência em declarar se votaria em Lula ou em Flávio Bolsonaro. O “calango”, nesse contexto, representava o candidato que, na interpretação da humorista, preferia permanecer em cima do muro a exemplo do próprio calango que sempre é visto em cima dos muros.
Essa distinção é fundamental para compreender o episódio.
Ontem, assisti a uma entrevista de Allyson à TCM em que ele abordou o assunto. Ao comentar o apelido, falou sobre sua origem na zona rural, sobre conhecer as dificuldades da seca e sobre ter vindo de uma terra árida, estabelecendo uma associação entre o calango e sua própria trajetória.
É justamente nesse ponto que considero necessário fazer uma reflexão.
Allyson parece buscar no episódio uma oportunidade de construir uma narrativa de vitimização, semelhante àquela explorada na disputa contra Rosalba Ciarlini, em Mossoró, em 2020, quando sua condição de candidato de origem humilde ganhou destaque na campanha.
Não vejo problema algum em transformar o calango em um símbolo eleitoral. A campanha pode criar música, dancinha, fantasias, personagens e explorar o animal como uma espécie de mascote. Tudo isso faz parte das estratégias de comunicação política e da tentativa de criar identificação com o eleitorado.
O problema, na minha avaliação, começa quando se procura transformar esse apelido em uma suposta manifestação de preconceito contra quem nasceu ou viveu na zona rural.
Pelo menos nas manifestações anteriores da humorista Vivi Alvares, essa não era a motivação. A crítica estava relacionada ao posicionamento político de Allyson, não à sua origem social ou geográfica.
São coisas muito diferentes.
Aliás, se o debate é sobre discriminação nesta campanha, considero mais pertinente lembrar as tentativas de classificar Cadu Xavier como “forasteiro”, em razão de sua origem fora do Rio Grande do Norte.
Esse tipo de abordagem merece questionamento porque sugere que o local de nascimento pode diminuir a legitimidade de alguém para disputar um cargo político no estado onde escolheu viver. É uma lógica que também atinge milhares de potiguares que nasceram em outras unidades da Federação, mas construíram suas vidas no RN.
Voltando ao calango, reitero: nada contra o uso do personagem como instrumento de marketing eleitoral. É uma estratégia legítima, ainda que reste pouco tempo de campanha para consolidá-la.
Minha crítica é à tentativa de associar o episódio a uma narrativa de rejeição à origem rural de Allyson, como se o apelido tivesse surgido de um preconceito contra sua história de vida.
Não é isso que as manifestações anteriores da humorista indicam.
E há ainda uma questão política que merece atenção.
Por que a campanha de Allyson decidiu dar tamanha dimensão ao episódio justamente nesta reta final?
A impressão que tenho é de que a exploração do calango pode representar uma tentativa de encontrar um novo elemento emocional capaz de mobilizar o eleitorado, reforçar a identificação popular do candidato e alterar a dinâmica de uma disputa que se revelou muito mais difícil do que se imaginava inicialmente.
Em outras palavras, o calango pode estar sendo utilizado não apenas como um símbolo de campanha, uma tentativa de construir uma narrativa de superação diante de uma suposta rejeição.
E é essa segunda utilização que considero questionável.
Porque uma coisa é transformar um apelido em instrumento de comunicação política. Outra, bem diferente, é atribuir a ele um significado discriminatório que não está demonstrado em sua origem.
No fim das contas, minha impressão é de que o calango está sendo apresentado como uma tábua de salvação eleitoral. Uma tentativa de encontrar, na reta final, o elemento emocional que talvez esteja faltando à campanha de Allyson Bezerra.




