A semana termina com o noticiário recheado de manchetes afirmando que o RN está quebrado, que a situação financeira é caótica, que a folha de pagamento dos servidores está em risco — enfim, cada manchete mais catastrófica do que a outra.
O movimento do vice-governador Walter Alves, que assumirá o Governo em abril de 2026 e tentou desde já obter um “salvo-conduto” para eventuais dificuldades com a folha dos servidores e com os fornecedores do Estado, acabou produzindo para a opinião pública — e entregando de bandeja aos adversários — um noticiário extremamente negativo.
Neste sábado está marcada uma reunião entre Walter Alves e Fátima Bezerra. Para alguns, a conversa servirá para que Fátima acalme Walter, explique as finanças do Governo e tente evitar que ele desista de assumir o comando do Estado.
Tenho para mim que o teor da conversa pode caminhar para outro tom. Houve um movimento extremamente desleal de Walter Alves em relação ao Governo.
Aliás, esse movimento já vem de meses. Desde quando se iniciou uma pressão silenciosa para que Fátima renunciasse antecipadamente — ainda este ano — para que Walter tivesse mais tempo para “performar”, ficou no ar a suspeita de que havia algo estranho.
A situação financeira do Estado é, sem dúvida, algo que merece atenção. Mas não é o fundo do poço que alguns tentam vender. A avaliação interna é que os números são muito melhores do que os que Fátima encontrou ao suceder Robinson Faria: quatro folhas salariais em atraso, precatórios em recorde, bilhões em dívidas com fornecedores e o fundo previdenciário zerado.
O estopim que Walter acendeu ao silenciar diante do crescente noticiário de que não assumiria o Governo por causa de um suposto caos financeiro — e após uma viagem a Brasília para comunicar ao MDB que não pretendia assumir — funcionou como combustível para a mídia anti-Fátima, que predomina em Natal.
Com o paiol e o isqueiro disponíveis, não tardou para o incêndio começar. Vieram as manchetes. E com elas as especulações: salário vai atrasar, Walter não vai assumir porque o Estado virou uma bomba, Fátima sequer será candidata ao Senado.
Tudo isso poderia ter sido evitado se, na origem, Walter tivesse dado uma única fala desmentindo a enxurrada de especulações. Mas era conveniente ao vice-governador deixar o rastilho de pólvora avançar. No mínimo, assegurava um salvo-conduto caso tudo dê errado após abril.
Vejam bem, não estou aqui fazendo defesa do Governo, nem quero entrar no mérito da crise das finanças estaduais. Meu foco é o gesto político de Walter Alves — o movimento desleal que fez contra a governadora. É impossível não notar que ele alimentou a avalanche.
Mesmo enfrentando alta rejeição, mesmo com dificuldades, o Governo vinha passando por um início de recuperação de imagem: a avaliação negativa havia parado de subir, os números da segurança pública eram positivos, os salários estavam em dia e o programa de recuperação de estradas mostrava resultados.
A brecha aberta por Walter fez com que o noticiário político passasse a ecoar em massa a ideia de que o Estado está quebrado, mergulhado no caos. O ambiente azedou. As notícias que o grupo político da governadora queria transformar em fatos positivos se transformaram em explicações — e mais explicações — para provar que o Estado não quebrou.
Não tenho dúvida de que Walter Alves assumirá o Governo em abril do próximo ano. Foi para isso, por isso e contando com isso que ele disse “sim” ao convite de ser vice quatro anos atrás. Todos os planos políticos que concebeu para 2026 passam por estar sentado na cadeira de governador.
O que duvido, neste momento, é se o governismo percebeu qual parceiro terá a partir de abril no comando do Estado.





