O maior prejuízo para Flávio, segundo as pesquisas, é a quebra da confiança

Tenho evitado analisar os efeitos do caso envolvendo o Banco Master na campanha de Flávio Bolsonaro, até porque já existem centenas de análises disponíveis em portais e redes sociais. Ainda assim, gostaria de registrar uma reflexão sobre este momento da campanha de Flávio.

Penso que a questão já ultrapassou o debate sobre Vorcaro ter patrocinado ou não o filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, ou mesmo sobre o grau de proximidade entre Flávio e o empresário. Do ponto de vista eleitoral, há um problema mais profundo: a perda de confiança.

Confiança é algo difícil de conquistar. Leva anos para ser construída e pode ser destruída em minutos. E não estou me referindo ao eleitor de centro — aquele que até poderia votar em Flávio. O desgaste aconteceu internamente. Parte do eleitor bolsonarista — excluindo o núcleo mais radical — ficou desconfortável com toda a situação. Houve uma perda de altivez. Como sustentar um discurso de moralidade e retidão, de cabeça erguida, diante de um episódio como esse?

A leitura que eu vinha fazendo, diante do crescimento de Flávio nas pesquisas, era de que o olhar de desconfiança com que parte do eleitorado bolsonarista e de centro enxergava o “01” começava a mudar. Parecia haver uma transição: da rejeição para a dúvida; da dúvida para uma aposta positiva.

Passei a perceber muitos eleitores bolsonaristas que antes se referiam de forma negativa aos filhos de Bolsonaro mudando gradualmente o discurso. O sentimento começava a ser algo como: “talvez Flávio seja uma boa opção; é um dos nossos e parece mais equilibrado”.

O episódio envolvendo Vorcaro trouxe de volta o olhar da desconfiança. O véu foi rasgado. Esse é, talvez, o maior prejuízo desta etapa da campanha. Quem defendia perdeu o desejo — ou até a condição — de continuar defendendo. Afinal, como justificar algo assim?

Não estou falando do eleitor mais incisivo, aquele que votará em Flávio independentemente do que aconteça, ou em qualquer nome que represente o antipetismo. Refiro-me à parcela do eleitorado que tende a decidir a eleição, composta por pessoas que possuem outras motivações para votar. É justamente esse grupo que voltou a olhar tudo com desconfiança.

É possível que, com o tempo, essa percepção mude novamente. Mas, para isso, não podem surgir novos fatos ou novos motivos para alimentar a desconfiança. E talvez esse seja justamente o maior desafio. O ambiente político está permanentemente tensionado. As manchetes são consumidas com avidez, os fatos se sucedem rapidamente, e a campanha passa a caminhar diariamente sobre uma corda bamba.

O principal problema para o eleitor bolsonarista é que Flávio estaria retirando dele algo que considerava valioso: o direito de apontar o dedo. A possibilidade de enxergar os petistas como o “lado escuro da força”. Com Vorcaro em cena, o chamado “lado do bem” passou a demonstrar constrangimento — e a olhar para o chão.

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