O vídeo de Michelle é mais um abalo sísmico na desconstrução da imagem de Flávio Bolsonaro

Numa campanha eleitoral, um fator decisivo para o eleitor tomar sua decisão de voto é a construção mental de uma imagem positiva em relação a determinado candidato. Quando essa percepção se consolida, dificilmente o eleitor muda de opinião.

Faço essa observação para expor um raciocínio sobre o que vem acontecendo com a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, principalmente após a divulgação do vídeo em que Michelle Bolsonaro afirma ter sido humilhada e ofendida por ele.

Antes do episódio envolvendo o Banco Master e do áudio em que Flávio cobra de Daniel Vorcaro o pagamento do patrocínio do filme sobre Jair Bolsonaro, parte do eleitor de direita que não se considera bolsonarista parecia começar a construir uma percepção mais favorável sobre sua candidatura. Aos poucos, começava a assimilar a ideia de que o filho mais velho de Bolsonaro poderia representar uma alternativa viável.

O vazamento da conversa entre Flávio e Vorcaro, porém, quebrou esse encanto. Não tanto pela questão financeira, mas principalmente porque Flávio foi confrontado com uma mentira pública. No meu entendimento, foi esse episódio que comprometeu a imagem positiva que parte desse eleitorado começava a formar. A perda de confiança é algo fatal.

Agora, o vídeo de Michelle relatando que foi destratada e humilhada acrescenta um novo elemento de desgaste. Desta vez, com repercussões dentro do próprio bolsonarismo e também junto ao eleitorado feminino. Confrontar Michelle pode representar um custo político significativo.

Pior ainda foi a reação de Flávio após a divulgação do vídeo da madrasta. Ao afirmar que nada nem ninguém iria aborrecê-lo porque era dia de jogo do Brasil, encerrando a resposta com um “Tenho mais o que fazer”, transmitiu uma imagem de desdém diante da crise. Em vez de reduzir o desgaste, acabou ampliando a repercussão negativa.

O vídeo da esposa de Jair Bolsonaro tem um peso político considerável. Michelle construiu uma imagem pública associada à religiosidade, à família e aos valores conservadores, atributos que lhe garantem boa aceitação em uma parcela importante do eleitorado feminino. Entrar em conflito com ela tende a ser um péssimo negócio político.

A pergunta que muitos fazem é por que somente agora Michelle resolveu tornar público esse episódio, ocorrido, segundo ela, há mais de três meses. Evidentemente, algum fator levou à decisão de divulgar o vídeo neste momento.

Como não disponho de elementos para identificar o motivo dessa decisão, prefiro não especular. O fato é que a imagem de Flávio Bolsonaro entra em um momento de forte desgaste. E, durante a campanha, dificilmente será poupado pelos adversários. Ao contrário: passa a oferecer diversos pontos de vulnerabilidade que certamente serão explorados. O preço político tende a ser alto.

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